“Quem ama busca conhecer”: professor de Petrópolis transforma paixão pela Física em inspiração para ensinar
Entre experiências, vídeos, listas de exercícios e uma relação próxima com os alunos, Igor Jaconi acredita que ser professor vai muito além de ensinar fórmulas, é despertar curiosidade e mostrar que a educação pode transformar vidas
“Professor, eu odeio a sua matéria, mas eu amo as suas aulas.” A frase, que poderia ser encarada como uma crítica, é recebida com felicidade por Igor Jaconi. Professor de Física e Matemática, ele sabe que a disciplina que ensina carrega, para muitos estudantes, a fama de ser difícil, complicada e distante da realidade.

Fotos: @paulovitorfotografia_
Por isso, quando um aluno diz que não gosta de Física, mas gosta de estar em sua aula, Igor entende que existe ali uma possibilidade: a de, algum dia, fazer com que aquele estudante também descubra o prazer de conhecer a disciplina.
“Dentro do que eu acredito de educação, primeiro a gente escolhe gostar do professor e só depois vai ver se gosta da matéria. Não adianta um tema legal com um professor que a gente não simpatiza. Então eu acho que a minha forma apaixonada de ensinar é o que cativa os alunos”, explica.
A relação próxima com os alunos é um dos principais motivos que fazem Igor continuar acreditando na sala de aula. Para ele, ensinar não é apenas cumprir um conteúdo programático. É entrar em contato com outras pessoas, despertar curiosidade e, de alguma forma, deixar uma marca na trajetória de cada estudante.
“Tudo o que eu faço envolve muito amor. Eu sou movido pelo meu coração. Então, aonde eu estou é aonde o meu coração está”, afirma. E, no caso dele, o coração está na escola.

Fotos: @paulovitorfotografia_
Um professor que gosta de estar entre os alunos
A paixão pela sala de aula não nasceu quando Igor começou a dar aulas. Ela já estava presente muito antes da escolha profissional. “Eu sempre gostei muito do ambiente da escola. Quem estudou comigo sabe: eu sempre me diverti muito, gostava de uma bagunça, mas também gostava de estudar e tirar boas notas. O ambiente da escola, para mim, sempre foi muito especial. Talvez sair dele nunca estivesse nos meus planos”, conta.
É por isso que ele se identifica com uma frase que ouviu certa vez: “O professor é alguém que não conseguiu sair da escola, de tanto gostar dela”.
A brincadeira resume bem a relação de Igor com a profissão. Desde o Ensino Médio, ele já gostava de ajudar os colegas com Matemática e de explicar aquilo que havia aprendido. A Física apareceu depois e transformou uma afinidade em paixão.
As leis de Newton e de Kepler, principalmente, despertaram nele o encantamento de perceber que a matemática poderia explicar aquilo que acontece no mundo. “Como podem pessoas terem descoberto leis de como o universo funciona? Um legislador pode criar uma lei de como as pessoas vão viver, mas essas leis podem ser desobedecidas. As leis de Newton, que ele descobriu na natureza, não podem ser desobedecidas nem desrespeitadas”, explica.
Foi quando decidiu que queria ser professor de Física. Mais tarde, também se formou em Matemática. Hoje, estudar continua fazendo parte da vida dele mesmo quando não está trabalhando.
“Eu não acho que a educação tenha que ter uma finalidade. A gente aprende porque tem que aprender, porque quer aprender, porque gosta de aprender. A educação vale por si só. No meu tempo livre eu passo estudando Física, lendo, porque para mim é um prazer, é um hobby, é uma alegria”, descreve.

Fotos: Arquivo Pessoal e @paulovitorfotografia_
Quando o professor vira parte da vida dos alunos
Talvez a dimensão mais afetiva da profissão tenha aparecido ainda nos primeiros anos de sua trajetória. Em 2022, Igor ganhou destaque em Petrópolis ao criar o personagem “Cientista Maluquinho”, usando experiências e brincadeiras para aproximar crianças da ciência.
A experiência acabou levando a um trabalho no laboratório de Ciências do Colégio de Aplicação da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), com alunos do Ensino Fundamental I. Mesmo depois de deixar a instituição para assumir um cargo na rede municipal, a relação permaneceu.
“Eu não consigo andar pelo campus da UCP sem um grupo de crianças me parar, me abraçar e demonstrar carinho. Quando chegava a Páscoa, eu vinha com chocolate de presente que não cabia no carro”, lembra.
A experiência ajudou a reforçar uma ideia que hoje acompanha seu trabalho: ensinar também é criar vínculos. E esses vínculos continuam aparecendo nas salas de aula em que trabalha atualmente.
Para Igor, uma das maiores recompensas é perceber que os estudantes reconhecem o entusiasmo que ele coloca naquilo que faz. “Eu sempre falo para os meus alunos: eu desejo, do mais profundo do meu coração, que vocês encontrem uma profissão em que vocês se esqueçam do horário, do relógio, do celular, igual eu estou aqui agora. Eu preciso pedir para os alunos me avisarem quando minha aula acaba, porque eu entro ali e só vivo aquilo. Eu só vivo o que estou falando, explicando”.
Veja também: Petropolitano cria personagem “Cientista Maluquinho” para ajudar crianças no aprendizado da ciência

Foto: Divulgação
A proximidade entre professor e uma nova geração
Essa conexão também passa por uma característica particular de Igor: ele se sente próximo da geração que hoje ocupa as salas de aula. Ainda jovem, ele entende a linguagem dos adolescentes, acompanha os mesmos ambientes digitais e consegue transitar entre a escola tradicional e as redes sociais.
Mas sabe que essa proximidade não é garantida para sempre. “Hoje eu sou jovem. Acredito que ainda sou Geração Z, estou ali na transição de uma geração para outra. Então eu ainda me conecto muito bem com eles, entendo a linguagem deles, consigo acessá-los. Mas quem sabe se daqui a 10, 20 anos eu não vou mais conseguir isso?”, questiona.
Para ele, essa é uma das dificuldades que acompanham a carreira docente: não basta dominar o conteúdo. É preciso continuar conseguindo chegar até quem está do outro lado da sala.
Igor observa que muitos professores mais experientes acabam cansados e sobrecarregados não apenas pelas condições de trabalho, mas também pela dificuldade de estabelecer conexão com novas gerações. É justamente aí que a internet se tornou uma ferramenta importante em seu trabalho.

Fotos: @paulovitorfotografia_
A Física que continua depois do sinal
Os vídeos publicados nas redes sociais, @igorjaconi, nasceram, em parte, dessa vontade de conversar com os estudantes em uma linguagem que faça parte do cotidiano deles. E o retorno aparece até fora da sala de aula.
“Professor, estou te seguindo no TikTok”, “professor, estou te vendo no YouTube”, “professor, curti seu vídeo no Instagram” são frases que Igor passou a ouvir com frequência.
Confira um destes vídeos:
Para ele, saber que um aluno escolheu assistir a um conteúdo de Física em meio a tantas outras possibilidades da internet tem um significado especial. “Os alunos gastam um tempo na rede social com tantas coisas que não agregam. Saber que eles estão lá assistindo a um vídeo de Física realmente me anima. Pelo menos 30, 40, 50 segundos daquele dia daquele aluno foi tendo contato com Física ou com algum conteúdo que eu espero que agregue na vida dele de alguma forma”.
Mas a internet não serve apenas para divulgar o trabalho. Igor também encontrou nela uma forma de ampliar o tempo de contato dos estudantes com aquilo que foi discutido em sala.
Neste ano, passou a gravar em vídeo a resolução das listas de exercícios. Para cada turma, prepara dezenas de questões e grava as explicações individualmente, permitindo que os alunos voltem ao conteúdo quando precisam estudar.
Os vídeos são privados e disponibilizados aos próprios estudantes. E o número de visualizações permite até que Igor tenha uma dimensão de quantos alunos estão recorrendo ao material. O resultado tem sido um dos retornos mais gratificantes da carreira. “Eu escuto muita frase: ‘Professor, tirei dez na sua prova graças aos vídeos’”.
Mas uma situação em particular o emocionou. Um aluno esperou os colegas saírem da sala, foi até a mesa do professor e agradeceu pelo trabalho. Ele falou: “Professor, eu não consigo imaginar o trabalho que dá fazer todos aqueles vídeos, editar, postar no YouTube, colocar na lista, mas eles foram fundamentais para eu melhorar em Física. Queria te dar um abraço para agradecer”.
Para Igor, é nesse tipo de momento que a profissão encontra seu verdadeiro significado. “A vida do professor é isso. O fim último da nossa profissão está no outro, está no próximo, está em entregar algo para alguém”, ressalta.

Fotos: @paulovitorfotografia_
Entre a paixão e a desvalorização
Mas amar a profissão não significa ignorar as dificuldades. Igor reconhece que são muitos os desafios enfrentados atualmente por quem escolhe a docência. Entre eles, está uma contradição que considera especialmente dolorosa: o professor é responsável pela formação de todas as outras profissões e, ainda assim, é frequentemente desvalorizado.
“O professor é a profissão que forma todas as profissões. E aí uma profissão com uma importância como essa fica evidente a sua desvalorização quando praticamente qualquer outra profissão de nível superior tem uma remuneração melhor do que aquela que formou todas as outras”.
A questão financeira também produz uma consequência direta: a sobrecarga. Para compensar a remuneração, muitos professores assumem mais aulas e trabalham em diferentes instituições.
No caso da Física, Igor explica que a quantidade de aulas por turma também dificulta a composição de uma jornada concentrada em apenas uma escola. “Eu dou aula de Física e tenho dois tempos. Então eu nunca vou conseguir preencher em uma escola toda a minha carga horária. Vou precisar trabalhar em duas, três escolas”.
Em uma cidade com dificuldades de mobilidade como Petrópolis, o deslocamento entre diferentes instituições se transforma em mais uma camada de desgaste. “Às vezes o professor no início da carreira nem um carro tem, uma moto também não. Isso fica esgotante. Chega em casa muito tarde para acordar cedo no outro dia”, relata.
Para Igor, o resultado é uma profissão que pode levar ao limite físico e emocional. “Tudo isso vai levando o professor, com o tempo, para um estresse, um burnout. Em algum momento ele dá tilt”.

Fotos: @paulovitorfotografia_ e Arquivo Pessoal
Quando ensinar também exige vontade de aprender
Existe, porém, outro desafio que Igor considera ainda mais profundo. Para ele, muitos professores escolhem a profissão porque, em algum momento, tiveram alguém que marcou suas vidas e mostrou o poder transformador da educação. O problema aparece quando esse professor entra em sala e encontra estudantes que já não enxergam o conhecimento da mesma maneira.
“Não adianta você levar o cavalo até a beira do rio se o cavalo sem sede não bebe água. Ver tantos professores se esforçando por alunos que não tem mais a sede do conhecimento é uma das coisas que mais me frustra”, aponta.
Igor sabe que experiências, vídeos, aulas diferentes e novas estratégias podem ajudar a despertar o interesse. Mas acredita que existe também uma parte que precisa partir do próprio estudante: a vontade de conhecer.
É uma preocupação que, para ele, pode se tornar ainda maior no futuro. Igor chama atenção para a possibilidade de o Brasil enfrentar uma grande carência de professores, diante do esvaziamento dos cursos de licenciatura e das condições de trabalho.
Ao mesmo tempo, acredita que a própria internet pode ser parte de uma solução pessoal para esse cenário. “Eu vejo dar aulas online como um subterfúgio para mim mesmo. Um caminho para que eu possa ensinar Física como eu acredito, para quem realmente tem sede de aprender”.
O objetivo não é abandonar a sala de aula, mas ampliar as possibilidades. “Eu espero poder um dia crescer com esse canal e aumentar a ampliação dele, quem sabe um dia poder monetizar no YouTube e em outras plataformas para que eu possa também dar menos aulas e entregar uma qualidade ainda maior no que eu faço”, afirma.

Fotos: @paulovitorfotografia_
O professor que continua acreditando
Apesar dos desafios, Igor não perdeu aquilo que o levou até a sala de aula. Pelo contrário: é justamente a própria experiência como aluno que sustenta sua crença na educação. “Eu fui transformado pela educação. Fui transformado por alguns professores e pelas escolas que eu passei”.
Ele fala especialmente sobre a educação pública que recebeu e sobre o desejo de devolver, por meio da própria profissão, aquilo que um dia recebeu. “Eu acredito verdadeiramente na educação pública de qualidade e hoje estou nesse meio para poder devolver o que um dia a educação pública, o que a educação como um todo, fez por mim”.
É por isso que, mesmo diante das dificuldades, ele afirma que existe uma condição para continuar sendo professor: “Se em algum momento eu deixar de acreditar, eu não estarei mais aqui”.
E aquilo que Igor gostaria que seus alunos levassem de suas aulas vai muito além de fórmulas, equações ou leis da Física. Ele quer que eles entendam que o conhecimento pode abrir caminhos. “A educação pode ser um trampolim social e muito mais do que isso. A educação pode ser o terreno fértil para o teu sonho crescer”, reforça.
E, no fim, tudo volta para a curiosidade que fez com que ele próprio se apaixonasse pela Física ainda adolescente. “Quem ama busca conhecer.” É o lema pessoal que Igor leva para a própria vida. Ele ama a Física e, por isso, quer conhecê-la cada vez mais. E acredita que o mesmo princípio pode ser levado para qualquer área da vida.
Aulão gratuito de Física para o Enem
Igor vai realizar uma série de quatro lives gratuitas de revisão de Física para o Enem, nos dias 21 e 28 de outubro e 4 e 11 de novembro, sempre às 19h15, no YouTube, clicando aqui.
A programação inclui conteúdos como Cinemática, Dinâmica, Termodinâmica, Ondulatória, Eletrodinâmica e Circuitos Elétricos, além de dicas para a prova, estratégias de resolução e análise de questões oficiais do Enem.
Os participantes também poderão acessar um mapa mental e uma lista exclusiva de exercícios gratuitos para reforçar os estudos.

Foto: Divulgação
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