Quem é o fotógrafo que vem fazendo sucesso nas áreas de corridas em Petrópolis?
Com vídeos bem-humorados e fotos incríveis, petropolitano Yuri Retoro conquistou corredores e ajudou a transformar o circuito de lazer em ponto de encontro aos domingos
Quem passa pela Barão do Rio Branco nas manhãs de domingo já deve ter cruzado com ele. Sentado em seu banquinho, câmera em mãos e sempre pronto para uma brincadeira, Yuri Retoro (@yuriretoro) se tornou uma figura conhecida entre os corredores de Petrópolis. Fotógrafo esportivo, ele registra os participantes do circuito de lazer, mas também conversa, provoca, incentiva e, principalmente, coleciona histórias.

Fotos: Arquivo Pessoal
O resultado dessa mistura ultrapassou as ruas da cidade. Os vídeos que Yuri grava durante as corridas conquistaram as redes sociais, acumulando visualizações e fazendo com que muitos corredores passem a frequentar a Barão também em busca de uma foto e, quem sabe, de aparecer em mais um vídeo do fotógrafo.
Uma relação com a fotografia desde a infância
A história de Yuri com a fotografia começou muito antes da Barão. O primeiro contato com a fotografia aconteceu ainda na infância, dentro de casa. O pai de Yuri era fotógrafo e registrava momentos da família com câmeras de filme.
Décadas depois, essas imagens impressas continuam guardadas na casa da mãe. A fotografia, porém, ganhou um novo significado em 2013, quando Yuri cursava Cinema e teve contato com a área de maneira mais técnica. Foi também nessa época que comprou sua primeira câmera.
Em 2014, iniciou outro projeto que mantém até hoje, voltado à fotografia documental de culturas de matriz africana, com registros, textos e histórias, o @orum_aye.

Fotos: Arquivo Pessoal
De uma mudança de cidade para a Barão
A chegada de Yuri a Petrópolis aconteceu em 2023, após o casamento. Até então, ele havia trabalhado durante 16 anos no Rio de Janeiro como repórter cinematográfico da Record. Ao deixar o emprego e se mudar para a cidade, precisou encontrar uma nova forma de continuar trabalhando com fotografia e audiovisual. Foi nesse momento que surgiu a oportunidade de entrar no mercado da fotografia esportiva.
“Quando cheguei na cidade, sem saber muito o que fazer, já tinha muitas corridas acontecendo no Rio junto com o boom da fotografia esportiva. Um grande amigo, o Maicon Lima, que também trabalha com fotografia esportiva, me deu essa dica”, conta.
Yuri começou fotografando corridas no Parque de Itaipava, próximo de onde morava. Até descobrir a Barão do Rio Branco. “Teve um domingo que fui para lá e vi que tinha uma oportunidade melhor por conta do volume de gente. Comecei a fazer esse trabalho todo domingo: saía de casa cedo, ia para a Barão, colocava meu banquinho na rua e começava a fotografar as pessoas, entregando cartãozinho”, lembra.
A fotografia esportiva surgiu muito mais por necessidade do que por um planejamento. “Eu precisava fazer dinheiro, trazer o sustento para dentro de casa. A fotografia esportiva começou na minha vida através da necessidade de ter uma renda mesmo. Cheguei nessa cidade sem renda, não conhecia ninguém e não consegui emprego. Foi a linha que encontrei para exercer minha profissão”.

Fotos: Arquivo Pessoal
A câmera virou ponto de partida para novas amizades
Com o tempo, Yuri percebeu que fotografar bem não era suficiente. Era preciso fazer com que as pessoas se lembrassem dele. Foi aí que começou a conversar cada vez mais com os corredores e, posteriormente, a registrar essas interações em vídeo.
“A ideia de começar a gravar meu trabalho veio porque eu acabava conversando e batendo papo com eles. Eu não conhecia as pessoas e elas também não me conheciam. Eu tinha que arrumar um jeito de que elas lembrassem de mim”, explica.
A inspiração veio de uma situação bastante cotidiana: os vendedores que trabalham nas ruas. “Eu me apoiei muito no que a gente vê dos ambulantes de rua. A diferença de quem trabalha com esporte na rua para um ambulante que vende bala é o preço do equipamento de trabalho. O fotógrafo vai com um equipamento um pouco mais caro, mas o que vende na rua é a comunicação do vendedor”, brinca.
Para Yuri, a relação criada com o cliente é tão importante quanto a qualidade da fotografia. “Muitas vezes as pessoas não compram somente pela qualidade do material entregue. Elas compram pela relação que criam com você. Então comecei a fazer isso para criar essa relação com as pessoas. E já é algo muito natural meu, porque sou falastrão mesmo. Gosto de conversar, sou comunicativo e gosto de saber das histórias”.
Confira um desses momentos:
Um fotógrafo que acompanha histórias
A convivência semanal fez com que Yuri deixasse de ser apenas o fotógrafo que registra a chegada dos corredores. Ele passou a acompanhar suas histórias.
Ao longo do tempo, viu mulheres que estavam grávidas voltarem às corridas com os filhos, relacionamentos começarem e terminarem, pessoas enfrentarem problemas de saúde e corredores transformarem seus corpos e suas rotinas por meio do esporte. Essa proximidade também fez com que alguns corredores compartilhassem histórias pessoais com o fotógrafo.
Uma delas, em especial, marcou Yuri. Uma corredora contou que havia passado por um período difícil depois do fim de um relacionamento, quando perdeu a autoestima, ganhou peso e deixou de se reconhecer. Segundo ela, os vídeos de Yuri foram um dos estímulos que ajudaram em seu processo de retomada.
“Ela me agradeceu por eu estar fazendo esse trabalho e disse que eu poderia não ter dimensão do que estava fazendo, mas que aquilo era muito importante para muita gente. Esse foi um dos relatos que mais me marcou. A fotografia existe porque existem pessoas. Quando a gente perde o interesse pelo ser humano, a fotografia também perde o propósito, que é eternizar as memórias. A gente vai lembrar da fotografia quando a nossa memória falhar”, afirma.

Fotos: Arquivo Pessoal
O sucesso dos vídeos: ser real
Nas redes sociais, o jeito descontraído do fotógrafo virou uma marca. Yuri brinca com os corredores, faz provocações, comenta as situações que encontra durante a manhã e não esconde nem mesmo quando está cansado ou quando uma fotografia não ficou como gostaria. Para ele, essa espontaneidade ajuda a explicar o sucesso.
“Hoje, com a internet e essas rotinas mirabolantes que a gente encontra em diversos perfis, ser real traz um diferencial. Nos meus vídeos eu falo minhas besteiras, brinco com as pessoas, sacaneio dentro do respeito e também falo quando a foto está ruim, quando está boa, quando eu não gostei do dia ou quando estou cansado”, diz.
Yuri acredita que o público se identifica justamente porque não existe uma tentativa de construir um personagem perfeito. “As pessoas hoje estão buscando a realidade dentro da internet, porque tudo está muito artificial. Os corpos perfeitos, as falas perfeitas, as casas muito bem encenadas. Comigo não tem isso. Eu sou um cara comum, falando com pessoas comuns e fazendo um trabalho comum”.
Até as dificuldades financeiras entram nas brincadeiras. “Eu falo para eles: ‘Gente, se eu não fosse um cara que tivesse dívida, certamente não estaria aqui no domingo. Me ajuda a comprar foto porque estou cheio de dívida para pagar’. As dívidas diminuíram, mas ainda existem. A gente ainda tem conta para pagar”, brinca.

Fotos: Arquivo Pessoal
Uma Barão diferente aos domingos
Para o fotógrafo, a transformação da Barão do Rio Branco em um ponto de encontro esportivo também passa pela fotografia. Ele faz questão de destacar que não foi um trabalho individual, mas de todos os fotógrafos que atuam no local e movimentam as redes sociais.
“Se você chegar na Barão hoje em dia, domingo de manhã, vai encontrar um comércio à parte na cidade. Tem senhora vendendo açaí, outra vendendo bolo de pote, rapaz vendendo água, suco, café. Virou um ponto de encontro antes das oito da manhã”, observa.
Além de incentivar a prática esportiva, o movimento também criou uma nova dinâmica econômica no entorno. “Eu posso afirmar: quem fez isso foi a fotografia. Transformou a Barão no que ela está sendo hoje, no movimento que está sendo hoje, nas pessoas saindo de casa para se movimentar, nem que seja só para ter uma foto para postar”, afirma.
Mesmo com a possibilidade de fotografar outras provas e cidades, Yuri não pretende abandonar a Barão. “Meu ponto fixo aos domingos é a Barão do Rio Branco. Pode ter outra corrida na cidade, outros eventos ou outras cidades, mas dou sempre preferência por estar ali, porque foi construída uma relação”, explica.

Fotos: Arquivo Pessoal
Os próximos passos
Para o futuro, Yuri pretende continuar explorando a relação entre esporte, fotografia e cidade. A ideia é ampliar o trabalho para outros pontos de Petrópolis e ajudar a criar novos espaços para a prática esportiva.
Ele cita, por exemplo, a possibilidade de levar o movimento para regiões como o Quitandinha e criar circuitos em diferentes locais durante a semana. “Eu quero explorar mais a cidade. Petrópolis é uma cidade muito voltada ao esporte e merece ter mais espaços para que as pessoas possam circular, praticar esporte e ter lazer”, afirma.
Enquanto novos projetos não saem do papel, a rotina segue tendo um endereço certo aos domingos. Na Barão, entre corredores, câmeras, brincadeiras e histórias, Yuri encontrou não apenas uma forma de trabalhar, mas uma comunidade da qual passou a fazer parte.
E, para quem corre por ali, talvez seja difícil imaginar a manhã de domingo sem a presença do fotógrafo que, além de congelar momentos, acabou ajudando a construir parte da memória daquele lugar.
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