Corpus Christi: conheça as histórias por trás dos tradicionais tapetes de sais de Petrópolis
Tradição centenária une fé, arte e trabalho voluntário na preparação da solenidade que transforma o Centro da cidade em um grande cenário religioso
Celebrado na próxima quinta-feira (4), o feriado de Corpus Christi volta a transformar as ruas do Centro de Petrópolis em um caminho de fé, devoção e arte. Os tradicionais tapetes coloridos, confeccionados por centenas de voluntários, são uma das marcas mais conhecidas da celebração católica e atraem tanto fiéis quanto turistas. Mas por trás dos desenhos que enfeitam as ruas existe uma tradição repleta de simbolismos, curiosidades e histórias de dedicação comunitária.

Foto: arquivo Larissa Sabrá
Para ajudar a compreender a origem e os significados da solenidade, o assessor de comunicação da Diocese de Petrópolis, Rogério Lima Tosta, nos contou sobre algumas curiosidades das celebrações mais importantes do calendário católico.
Como surgiu a data?
A solenidade de Corpus Christi surgiu na Bélgica, no século XIII. A religiosa Juliana de Monte Cornélio teria recebido uma visão de uma lua cheia parcialmente encoberta. Mais tarde, Cristo revelou que aquela imagem representava uma ausência na vida da Igreja: uma festa dedicada à adoração do Seu Corpo e Sangue. A celebração começou regionalmente em 1246 e, posteriormente, foi adotada por toda a Igreja Católica.
Sal na confecção dos tapetes
O sal é um dos materiais mais tradicionais na confecção dos tapetes, ao lado da serragem colorida. A quantidade utilizada varia de acordo com a extensão do percurso, mas pode ultrapassar 50 quilos. Os materiais são escolhidos por serem simples e facilmente encontrados, facilitando a participação da comunidade.

Fotos: arquivo Thiago Alvarez
Montagem leva horas
Embora sejam admirados por apenas algumas horas, os tapetes exigem bastante dedicação. A produção costuma levar entre três e cinco horas, dependendo do tamanho da área decorada e da complexidade dos desenhos.
Voluntários participam da confecção
Somente na região central de Petrópolis, mais de 100 pessoas se mobilizam para confeccionar os tapetes. O trabalho reúne integrantes de pastorais, movimentos religiosos, famílias e moradores que ajudam a manter viva a tradição.

Fotos: arquivo Julian Probst e Arquivos Sou Petrópolis
Desenhos que misturam fé e criatividade
Não existe uma regra única para a criação das imagens. Algumas são reproduzidas a partir de modelos já conhecidos, enquanto outras nascem da criatividade dos participantes. Entre os temas mais comuns estão representações de Jesus Cristo, Nossa Senhora, santos padroeiros, símbolos religiosos e mensagens de paz, amor e solidariedade.
Tradição tem origem nos Evangelhos
Os tapetes remetem à passagem bíblica que narra a entrada de Jesus em Jerusalém. Segundo os Evangelhos, as pessoas colocaram mantos e ramos pelo caminho para recebê-lo. A decoração das ruas durante o Corpus Christi simboliza esse mesmo gesto de acolhimento e reverência.

Foto: arquivo Davi Corrêa
Única vez que o Santíssimo Sacramento percorre as ruas
Uma das curiosidades da celebração é que Corpus Christi é a única solenidade do calendário católico em que o Santíssimo Sacramento deixa o interior da igreja para ser levado em procissão pelas ruas. A única exceção recente ocorreu durante a pandemia da Covid-19, quando a Igreja realizou procissões especiais para levar a bênção aos fiéis.
Tradição atrai turistas todos os anos
Além dos católicos que participam da missa e da procissão, a celebração também chama a atenção de visitantes. Muitas pessoas vão ao Centro de Petrópolis apenas para admirar os tapetes, transformando a data em um dos momentos mais aguardados do calendário religioso da cidade.

Foto: arquivo Davi Corrêa
Dedicação e fé
Entre os voluntários que ajudam a manter viva a tradição está Joseleno Lamas Lopes, da Paróquia Sant’Ana e São Joaquim de Cascatinha. Há cerca de cinco anos, ele participa da confecção dos tapetes e acompanha de perto o crescimento da mobilização da comunidade.
A participação começou após um convite do pároco, padre Gustavo Passos, para que as pastorais da paróquia se unissem às demais comunidades do Decanato São Pedro de Alcântara na preparação da celebração. Desde então, a atividade se tornou uma expressão de fé compartilhada por toda a família.

Joseleno de boné e sua família – Foto: arquivo pessoal Joseleno Lamas Lopes
“Preparar os tapetes para que Jesus passe sobre eles é um momento de grande alegria para nossa família e para toda a comunidade. É uma manifestação de fé, união e devoção”, afirma.
Trecho da Paróquia de Cascatinha
A Paróquia de Cascatinha é responsável por um trecho da Rua Nelson de Sá Earp. O trabalho começa meses antes da celebração, com a arrecadação de serragem — principal material utilizado pela comunidade —, preparação das tinturas, organização dos moldes e divisão das equipes.
Atualmente, mais de 200 voluntários participam da montagem apenas no trecho coordenado pela paróquia. Os desenhos são ampliados em dezenas de folhas impressas que, unidas, formam grandes moldes preenchidos com serragem colorida, pó de café, areia e outros materiais.
Joseleno recorda que os primeiros anos foram marcados por desafios, como a falta de recursos e de voluntários. Com o passar do tempo, a comunidade se fortaleceu e transformou a confecção dos tapetes em um momento de confraternização entre pastorais, movimentos e famílias.

Fotos: arquivo pessoal Joseleno Lamas Lopes
Lembranças
A lembrança mais marcante surgiu durante uma das primeiras participações, quando seus filhos perguntaram se era realmente “o Papai do Céu” que passaria sobre os tapetes. A simplicidade da pergunta o fez refletir sobre a profundidade da fé celebrada naquele dia.
“Hoje conseguimos realizar um trabalho bonito graças à união de toda a comunidade. É uma missão que precisa continuar crescendo para toda honra e glória de Deus”, destaca.
Mais do que colorir as ruas do Centro, os tapetes de Corpus Christi ajudam a fortalecer laços comunitários e a renovar, ano após ano, uma tradição que atravessa gerações em Petrópolis.
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