[Maio Laranja] “Hoje consigo perdoar minha mãe”, relata petropolitana que sofreu abuso na infância
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), mostram que Petrópolis teve 142 casos de estupro contra crianças e adolescentes em 2025. Só neste ano, a cidade já contabiliza 29 ocorrências
Dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ) revelam uma situação alarmante em Petrópolis: 142 crianças e adolescentes, entre 0 e 17 anos, foram vítimas de estupro em 2025. O número representa um aumento de 10% em relação a 2024, quando foram registrados 129 casos no município. Somente neste ano, a cidade já contabiliza 29 ocorrências.
Diante desse cenário, a campanha Maio Laranja mobiliza instituições, profissionais e a sociedade para conscientizar sobre o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes em todo o país.

Foto: Divulgação
Denúncias cresceram também no Brasil
Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, as denúncias registradas pelo Disque 100 cresceram 195% nos últimos quatro anos. Entre janeiro e agosto de 2025, o canal oficial contabilizou 200.043 denúncias envolvendo crianças e adolescentes vítimas de violações de direitos.
A advogada e professora do curso de Direito da Universidade Estácio de Sá, Amanda Guedes Ferreira, destaca que, no Brasil, uma criança é vítima de violência ou exploração sexual a cada quatro minutos.
Ela explica que é importante diferenciar abuso sexual e exploração sexual, embora muitas vezes os crimes estejam relacionados.
“O abuso sexual é qualquer conduta que constranja a criança ou o adolescente a praticar ou presenciar atos de natureza sexual, com ou sem contato físico e independentemente do uso de violência”, afirma.
A especialista ressalta ainda que, em casos envolvendo menores de 14 anos, a legislação presume a violência, tornando irrelevante juridicamente qualquer suposto consentimento da vítima.
Já a exploração sexual ocorre quando crianças ou adolescentes são utilizados para fins sexuais em troca de dinheiro, presentes, favores ou abrigo. Nesses casos, enquadram-se crimes como prostituição e pornografia infantil.
Legislação prevê penas severas
Amanda Guedes Ferreira destaca que a legislação brasileira estabelece punições rigorosas para crimes dessa natureza.
“O estupro de vulnerável, por exemplo, tem pena inicial de oito anos de reclusão, podendo chegar a 30 anos em casos que resultem em morte. Já o favorecimento à prostituição infantil pode levar a penas de quatro a dez anos, com agravantes quando o crime envolve familiares ou pessoas próximas”, explica.
A advogada alerta ainda para a subnotificação dos casos. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mais de 83 mil estupros de vulneráveis foram registrados no país em 2023 — uma média de 228 casos por dia. Ainda assim, estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que cerca de 90% das violências sexuais contra crianças e adolescentes não são denunciadas.
Dados do Ministério da Saúde também indicam que aproximadamente 70% dos abusos são cometidos por pessoas conhecidas da vítima, como pais, padrastos, parentes ou vizinhos.

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
“Hoje consegui perdoar minha mãe”
Uma petropolitana, de 27 anos, que prefere não se identificar, carrega marcas profundas da violência sexual sofrida ainda na infância. Filha de mãe solo, ela cresceu em meio às dificuldades financeiras e à insegurança alimentar. Foi nesse contexto de vulnerabilidade que os abusos começaram.
“Minha mãe enfrentava muitos problemas e nós passamos até fome. Quando conseguimos uma moradia, um vizinho percebeu nossa situação e começou a ajudar com alimentos. Muitas vezes ele levava comida e minha mãe me deixava sozinha com ele. Eu tinha entre 10 e 11 anos quando os abusos aconteciam”, relembra.
Segundo a vítima, ela chegou a contar para a mãe o que vivia, mas não foi acolhida. “Eu dizia o que estava acontecendo e ela falava que era coisa da minha cabeça. Então eu comecei a acreditar nisso também.”
Os impactos da violência atravessaram toda a infância e adolescência da vítima. O medo, a tristeza e o isolamento passaram a fazer parte da rotina.
“Eu tinha medo de sair para brincar com outras crianças. Na escola não conseguia me desenvolver, vivia triste. As professoras percebiam que tinha algo errado, mas eu não conseguia contar para ninguém”.
Aos 18 anos, ela foi morar com um familiar e, pela primeira vez, conseguiu revelar o que havia vivido. Incentivada, denunciou o caso, mas afirma que não houve justiça.
Com o passar do tempo, ela buscou ajuda psicológica para reconstruir a própria vida. “Faço terapia até hoje. Foi um processo muito difícil, mas consegui entender muitas coisas. Hoje, mesmo sabendo de toda dor que vivi, consegui perdoar minha mãe”.
Como agir diante de suspeitas
Em situações suspeitas, Amanda orienta que familiares ajam com cautela para preservar a vítima e não comprometer possíveis provas.
“A primeira medida é evitar o confronto direto com o suposto agressor. Também não é recomendado pressionar a criança ou o adolescente a relatar os fatos, porque existe uma legislação específica que determina como ela deve ser ouvida”, explica.
A orientação é procurar atendimento médico imediato em unidades de saúde ou centros especializados. Em seguida, a família deve registrar a ocorrência em delegacias, preferencialmente em unidades especializadas, quando houver.
As denúncias também podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100. O Conselho Tutelar do município também atua no acolhimento e encaminhamento dos casos.
A advogada reforça ainda que profissionais da saúde e da educação têm obrigação legal de comunicar suspeitas de violência.
“O silêncio protege o agressor, enquanto a denúncia protege a vítima”, afirma.

Foto: Divulgação
Sinais de alerta podem surgir no comportamento
A professora do curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá, Iara Farias, explica que muitas crianças não conseguem compreender completamente a violência sofrida.
“Muitas vezes a criança não consegue entender se o que está vivendo é uma situação de perigo. Ela não consegue discernir isso com clareza”, diz.
Segundo a psicóloga, mudanças repentinas de comportamento são sinais importantes de alerta. Medos incomuns, isolamento, dificuldades escolares e alterações na convivência social podem indicar que algo está errado.
Ela também destaca que algumas vítimas podem desenvolver vínculos afetivos com o agressor, especialmente quando a violência ocorre dentro do ambiente familiar.
“Em alguns casos, a criança cria maior proximidade com quem a abusa e acaba naturalizando o que acontece com ela”, explica.
Comportamentos regressivos, como voltar a urinar na cama, apresentar linguagem infantilizada ou guardar segredos excessivos, também merecem atenção.
“É fundamental acolher o que a criança diz. Muitas vezes ela é desacreditada, e isso intensifica ainda mais o trauma”, alerta.
Além das mudanças emocionais e comportamentais, sinais físicos como machucados, ardência ou sangue nas roupas íntimas também podem indicar violência sexual.
Como denunciar
Casos suspeitos ou confirmados podem ser denunciados pelos seguintes canais:
- Disque 100 — denúncia anônima de violações de direitos humanos;
- Polícia Militar — telefone 190;
- Polícia Civil — telefone 197;
- Conselhos Tutelares dos municípios;
- Delegacias especializadas ou unidades policiais locais.
Maio Laranja reforça conscientização
O dia 18 de maio marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data foi instituída em 2000 em memória de um crime ocorrido em 1973, em Vitória, no Espírito Santo, quando uma menina de 8 anos foi sequestrada, violentada e assassinada.
Em 2022, uma lei federal ampliou a mobilização e instituiu oficialmente o Maio Laranja, campanha nacional de conscientização e enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes durante todo o mês.

Foto: reprodução Secretaria de Estado de Saúde
