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Em 12 anos, cresce o número de evangélicos e diminui o de católicos em Petrópolis

Cidade

Em 12 anos, cresce o número de evangélicos e diminui o de católicos em Petrópolis

Cidade também tem mais ateus, agnósticos, candomblecistas e umbandistas do que em 2010, segundo o Censo 2022

O Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgou os dados referentes às religiões da população brasileira. A nível nacional, o número de católicos diminuiu nos últimos 12 anos, enquanto o de evangélicos cresceu consideravelmente. E, em Petrópolis, isso também aconteceu.

Foto: @art.plumm

Por que há menos católicos atualmente?

A pesquisa aponta que, em 2010, 56,98% dos petropolitanos se consideravam católicos, um total de 168.615 pessoas. Já no último levantamento, este número caiu quase 9 pontos percentuais, chegando a 48,06% (119.340 petropolitanos). E estes números podem ser ainda menores.

“Os dados batem com a realidade, mas existe certa imprecisão, pois há muitos católicos ‘não praticantes’ que, na entrevista dizem ser da religião, mas que não comungam da fé ou frequentam a missa. Enquanto que, no protestantismo, raramente alguém que não vai ao culto se diz evangélico. Inclusive, como algumas pessoas vem tomando consciência disso, do último censo para este, muitos podem ter deixado de se considerar católicos, o que explica essa diminuição”, explica Igor Jaconi, que é devoto do catolicismo.

Ele reforça ainda que existem muitas pessoas que acreditam em Deus e se consideram cristãs, mas que não seguem a nenhuma religião e podem acabar, na pesquisa, afirmando ser católico ou protestante.

Foto: Divulgação PMP

Crescimento no número de evangélicos

Em contrapartida, os evangélicos, que representavam 26,72% da população petropolitana em 2010, hoje totalizam 29,14% dos habitantes da cidade. Para Angélica e Miguel Vieira, casal adepto ao protestantismo, este cenário vem mudando pelo maior ativismo entre os evangélicos, em comparação com os católicos.

“Percebo que, muito embora a Igreja Católica oferte atividades aos praticantes da fé, elas já são enraizadas. Enquanto as igrejas evangélicas, até mesmo pela maior variedade de doutrinas e costumes, ofertam atividades mais variadas, voltadas pra diversos públicos, sejam crianças, jovens ou idosos”, comenta Angélica.

Vale ressaltar que, apesar do aumento percentual, existem menos evangélicos em Petrópolis hoje do que há 12 anos. Antes, eram 79.069 fiéis desta religião, agora são 72.362. Isto acontece por conta da queda populacional da cidade, que diminuiu em 5,4%.

Igreja Luterana. Foto: Ana Kutter

Protestantismo atrai mais jovens do que o catolicismo

Em todo o Brasil, os evangélicos têm ainda o perfil mais jovem. Segundo o IBGE, 31,6% dos adolescentes brasileiros de 10 a 14 anos são protestantes. “Essa predominância dos jovens é uma reação às tendências modernas, culturais e filosóficas de cunho materialista, que podem gerar uma sensação de falta de sentido existencial. Por isso, muitos jovens têm buscado propósito na religião. Na evangélica, mais especificamente, onde os sermões tendem a ser mais motivadores e acolhedores”, pontua Miguel.

Angélica ainda acrescenta que a juventude sente uma necessidade de interação e conexão, tanto com o outro, como com a sua espiritualidade. “E as igrejas evangélicas acolhem esse desejo ao reunirem jovens que compartilham um propósito, ideias, amizades e uma fé em comum. A mensagem transmitida pelas pregações e costumes evangélicos acaba sendo mais acolhedora e sentimental, e isso agrada mais o público jovem atual do que apenas a doutrina católica dogmatizada”.

Para Igor, as causas desse cenário são multifatoriais mas, sobretudo, estão ligadas à resistência da Igreja Católica em se adaptar às mudanças tecnológicas. “Enquanto as igrejas evangélicas fazem até eventos online, na Católica nós temos os sacramentos, que são o cerne da igreja e só podem acontecer presencialmente. Não dá pra comungar pela internet ou se confessar por ligação, por exemplo. A Igreja até faz isso, mas a passos curtos. Falta se conectar com a juventude e com comunidades mais distantes”, afirma.

Além disto, ele pontua que a liturgia muitas vezes não é acessível a um público leigo e não letrado. “Por toda a sua gama doutrinária e litúrgica, a Igreja Católica tem uma dificuldade maior de se conectar com a juventude, em explicar o significado da Santa Missa e dos sacramentos. Enquanto na Evangélica, os próprios cultos já funcionam como uma catequese, uma palestra, de forma mais didática. Por isso, cada vez tem menos jovens participando e mais as senhorinhas do terço, as pessoas de mais idade, que já têm aquela fé por algum tempo e amadureceram nessa caminhada”, esclarece.

Foto: AFP

Brancos são em maioria católicos e negros evangélicos

Os dados apontam, ainda, o perfil de cada raça. Dentre os petropolitanos autodeclarados brancos, a maioria é católica, 53,18%, enquanto 23,49% é evangélica. Já entre os negros, o protestantismo prevalece, sendo a religião de 41,44% da população preta da cidade, enquanto o catolicismo representa apenas 35,42%. Entre os pardos, 43,11% são católicos e 35,5% evangélicos.

Aumentam os fiéis das religiões de matriz africana

Em relação às demais religiões, se destacam as de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, que tiveram um aumento de 1.778 (0,6%) adeptos para 3,651 (1,47%). Segundo Miguel, essas religiões conectam os fiéis com um senso maior de brasilidade e representatividade.

“O Candomblé e a Umbanda também tem cada dia mais vencido o preconceito que a sociedade trazia, seja através dos praticantes ou das redes sociais. Acredito que esse crescimento se dê em grande parte por isso”, complementa Angélica.

Além destes, os devotos das tradições indígenas representam 72 petropolitanos e os espíritas diminuíram de 12.580 (4,25%) para 9,517 (3,83%). As demais religiões somam 4,57% da população.

Foto: Arquivo Pessoal de Maria Eduarda Nonato

Petropolitanos têm abandonado mais sua fé

O levantamento revela ainda que o número de pessoas sem religião cresceu. Há 12 anos, eram 27.584 (9,32%) petropolitanos, hoje, são 31,473 (12,68%). Os ateus e agnósticos são, em sua maioria, homens e com maior escolaridade.

André Moura é ateu e considera que muitas pessoas têm saído das igrejas por não se identificarem com os valores atuais pregados por algumas delas. “Hoje, a religião virou um negócio, onde o dinheiro fala mais alto, abrindo margem pra muita coisa errada. Fora que as igrejas crescem em situações de vulnerabilidade, se alimentando da desgraça das pessoas”.

Igor concorda com a primeira afirmação. “Vivemos em uma sociedade cada dia mais materialista, que busca pelos bens materiais. E isso acontece na própria religião, principalmente no protestantismo, mas também no catolicismo, que é essa teologia da prosperidade, onde existe a obrigação de pagar o dízimo e uma promessa de que, seguindo aquela religião, você vai prosperar e ficar rico. Mas, em momento nenhum essa foi a mensagem de Jesus. Muito pelo contrário, ele disse para carregarmos nossa cruz e segui-lo, nunca foi prometido um caminho fácil. Isso afasta muitas pessoas, mas é uma consequência do nosso mundo materialista onde tudo que é espiritual perde o seu sentido. Por isso, muitos abandonam sua religião e até a crença em Deus”.

Em oposição à essa ideia, o petropolitano reforça que a Igreja Católica é a maior instituição de caridade do mundo. “Muita gente não sabe, mas tem cidades e países que não existiriam se não fosse a ajuda da Igreja. Isso é pouco divulgado e acaba perpetuando alguns preconceitos e paradigmas com a igreja”.

Angélica ressalta ainda um terceiro fator, a falta de acolhimento com quem não segue um padrão. “Ao mesmo tempo que muito jovens têm encontrado acolhimento, outros têm se decepcionado, seja por não se sentirem acolhidos ou até mesmo julgados. Além disso, muitas igrejas evangélicas e a Igreja Católica têm se permitido se envolver em questões políticas e partidárias, o que acaba por afastar muitos praticantes daquela religião, por não concordarem com o posicionamento da instituição, gerando uma decepção para com a religião como um todo”, finaliza.

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