Uma das bandas de rock mais antigas de Petrópolis, ‘S ou S’ completa 40 anos de estrada
Formada por irmãos e amigos, banda surgiu em um quarto nos anos 1980, atravessou diferentes fases da cena musical petropolitana, dividiu palco com nomes como Celso Blues Boy e segue na ativa quatro décadas depois
*Com colaboração de Sabrina Borsato
Antes dos grandes palcos, dos álbuns, das turnês e das quatro décadas de história, a banda petropolitana S ou S era formada por três jovens reunidos em um quarto. Sem bateria, o armário da casa servia como instrumento, enquanto Marco Antônio e os irmãos Percy e Robson Lucas começavam a construir, ainda sem saber, uma das trajetórias mais longevas do rock de Petrópolis.

Formação atual da banda. Foto: Arquivo Pessoal
“Nos primeiros anos, éramos apenas nós três, tocando no quarto e usando o armário como bateria. Na época, o Marco nem cantava, só queria tocar gaita, mas um dia ele confessou que tinha feito parte do coral Canarinhos de Petrópolis. Percebendo que ele era afinado e tinha uma voz potente, sugerimos que ele começasse a cantar”, lembra Robson Lucas, baixista da banda.
Essa história começou em 1985, mas foi em agosto de 1986 que a formação ganhou o primeiro baterista, Nando Berredo, marcando oficialmente o início da banda. Os ensaios passaram a acontecer na casa dele, mas chegar até lá também fazia parte da aventura de quem começava uma banda de rock em Petrópolis.
“Íamos para a casa dele por conta dos ensaios todas as segundas, com os instrumentos a tiracolo em ônibus lotados no horário de rush”, relembra o baixista.

Primeira formação da banda. Foto: Arquivo Pessoal
Uma banda que nasceu com apoio da família
Se os primeiros ensaios aconteceram dentro de casa, foi também ali que a S ou S encontrou alguns de seus primeiros grandes incentivadores. Ildefonso e Elina, pais de Robson e Percy, abriram as portas para que os amigos se reunissem e acreditaram no potencial dos filhos desde o começo.
Marceneiro, Ildefonso chegou a construir a primeira guitarra de Percy e o primeiro contrabaixo de Robson. Já os primeiros pedais de efeito foram comprados com dinheiro emprestado pela mãe.
“Se chegamos até aqui, é porque tivemos muito carinho, cuidado e incentivo, dentro da nossa casa”, afirma Percy, guitarrista da banda.
Outro personagem importante nos primeiros anos foi o amigo Robson Castro, dono de uma das maiores coleções de discos de rock da cidade na época.
Ele levava seus LPs para que os amigos pudessem ouvir juntos, apresentando aos jovens músicos bandas que se tornariam referências para a S ou S, como Van Halen, Rush e Led Zeppelin.
Curiosidade:
A ideia inicial dos jovens músicos era chamar o grupo de S O S, justamente por ser uma sigla que teria a mesma pronúncia em diferentes lugares do mundo.
A escolha, porém, esbarrou em um problema na hora de registrar o nome. Segundo Percy, o pedido foi vetado pelo INPI porque a denominação já estava associada à Cruz Vermelha.
Como a banda já começava a ficar conhecida na cidade e os integrantes não queriam abrir mão da sonoridade que haviam escolhido, veio a solução: transformar o “S O S” em S ou S.
“Como já estávamos com o nome conhecido na cidade, optamos por colocar S ou S para não perder a sonoridade. Na verdade, S ou S não quer dizer nada”, brinca Percy.

Trio original da banda. Foto: Arquivo Pessoal
O rock que nasceu nas garagens de Petrópolis
A S ou S surgiu em uma época em que o rock nacional vivia um de seus momentos de maior popularidade. Em Petrópolis, o movimento também encontrou espaço e ajudou a formar uma cena que reunia bandas autorais, amigos e os tradicionais ensaios improvisados em garagens e quartos.
Para Robson, o cenário daquela época era bastante diferente do atual. “Quando a banda começou a tocar, o rock nacional estava no auge. Nessa época, surgiram outras bandas em Petrópolis e o cenário era forte, com 90% delas tendo um trabalho autoral. Hoje, a maioria das bandas é de covers”, afirma.

Foto promocional de 1998. Foto: Arquivo Pessoal
O próprio clima da cidade também é lembrado como um dos fatores que ajudaram a criar esse ambiente. A percepção de músicos e pessoas ligadas à cena é de que o frio mais intenso de Petrópolis, especialmente décadas atrás, favorecia encontros dentro de casa, entre amigos, com música e instrumentos, estimulando o surgimento das chamadas bandas de garagem.
Enquanto outras regiões do estado desenvolviam manifestações musicais próprias, como as rodas de samba no Rio de Janeiro, Petrópolis encontrou no rock uma de suas principais formas de expressão entre os jovens.
Parte dessa história foi registrada no documentário O Som por Trás da Neblina, lançado em 2024, que reúne diferentes pessoas ligadas à música da cidade, incluindo a S ou S, para contar episódios e transformações da cena musical petropolitana. O documentário está disponível gratuitamente no YouTube, clicando aqui.

Formação atual da banda. Foto: Arquivo Pessoal
Quatro décadas de estrada e uma família no palco
Ao longo dos anos, a S ou S passou por mudanças de formação, períodos de pausa e diferentes momentos da música brasileira, mas manteve uma característica que, para Robson, explica boa parte da longevidade do grupo: a relação entre os integrantes.
“O que nos faz permanecer juntos principalmente é a irmandade. Somos uma família realmente, irmãos que compartilham um sonho desde jovens. O sonho de ter uma banda de rock”, afirma.
Mais do que ensaiar e subir ao palco, manter uma banda ativa por tanto tempo exige uma rotina que muitas vezes não aparece para o público. A S ou S trabalha constantemente na escolha e atualização do repertório, na preparação dos arranjos, na organização da agenda, no planejamento das apresentações e no alinhamento das questões técnicas.
“Essa dedicação constante é o que permite que a banda permaneça ativa há tantos anos, levando qualidade e energia ao público em cada show”, explica Robson.

Show em 2019. Foto: Profilm
Quando o Só Pra Contrariar “abriu” um show da S ou S
A trajetória da banda inclui dois trabalhos próprios: o álbum S ou S, lançado em 1993, e o Marcas na Estrada, de 1998. Entre 1998 e 2000, a banda também participou da gravação do álbum Vagabundo Errante e da turnê com o guitarrista Celso Blues Boy.

Show com Celso Blues Boy no antigo ATL Hall, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2000. Foto: Ellen Tardelli
E entre as histórias que ficaram na memória dos integrantes está uma apresentação na Exposição Agropecuária de Itaipava, no fim dos anos 1990. Na ocasião, o grupo Só Pra Contrariar faria um show no Parque de Exposições e precisava deixar Petrópolis rapidamente para pegar um voo na manhã seguinte. O grupo, então, pediu para tocar antes da S ou S.
O resultado virou uma das brincadeiras favoritas da banda. “Costumamos falar que o grupo Só Pra Contrariar abriu um de nossos shows”, conta Robson.
A apresentação também ficou marcada pelo tamanho do público. Segundo a banda, o evento reuniu entre 80 mil e 100 mil pessoas.

Show na Exposição Agropecuária, em 4 de maio de 1999. Foto: Tribuna de Petrópolis
Uma banda que virou parte da vida dos fãs
Quatro décadas de história também significam quatro décadas de histórias compartilhadas com quem estava do outro lado do palco. A professora Cintia da Cunha G. Ferreira conheceu a S ou S em 1994 ou 1995, quando foi a um bar em Itaipava chamado Son of a Gun por indicação de um amigo.
“Quando cheguei ao bar, vi que o vocalista era pai de uma aluna da escola onde eu trabalhava na época. Eu fiquei encantada com o local e principalmente com a banda. A energia do local era contagiante”, lembra.
A partir dali, vieram muitos outros shows. Na época, a banda chegou a tocar cerca de três vezes por semana, e Cintia estava presente em praticamente todos. “Por isso, eles me chamavam de perseguidora do S ou S”, brinca.

Foto: Arquivo Cintia da Cunha G. Ferreira
Para ela, a relação com a banda nunca ficou restrita à música. “Eles fizeram parte da minha vida não apenas como uma banda, proporcionando noites especiais com música, mas também como amigos queridos. Como uma das suas ‘perseguidoras’, eu os acompanhava em shows pelo Rio de Janeiro, Cabo Frio, Búzios. Criamos muitas memórias boas juntos”.
Cintia também acompanhou mudanças importantes na formação e na trajetória do grupo, incluindo a entrada do baterista Rodney Morelli, que também se tornou uma figura querida entre os fãs. “O Rodney também era uma pessoa especial. Uma pessoa leve e divertida. Com isso, a banda se tornou ainda melhor. Tenho muita saudade dessa época!”, conta.
A amizade construída ao longo dos anos fez com que ela acompanhasse momentos da vida pessoal dos integrantes, como o casamento e o nascimento das filhas. Hoje morando nos Estados Unidos, Cintia ainda mantém o vínculo com o grupo. Sempre que retorna ao Brasil, a primeira pergunta é praticamente automática: onde será o próximo show? “Eles sempre serão minha banda favorita e meus grandes amigos”.

Foto: Arquivo Cintia da Cunha G. Ferreira
Cintia, porém, não é a única fã que acompanhou de perto a trajetória da S ou S. Rosane Guerra Peixe também faz parte da história da banda. Ela trabalhava na Rádio Imperial quando o grupo estava começando e, desde então, acompanha “os meninos” até hoje.
“Nos tornamos amigos. Tenho recortes de matérias, roteiros de shows autografados, camisas e fitas cassete que nem a banda tem mais”, brinca Rosane.
Entre as lembranças mais recentes, ela destaca o aniversário da banda, no dia 4 de julho, quando foi chamada ao palco para participar da comemoração.
A banda também cita Helga Hruza como outra de suas fãs mais fiéis. Ela é recordista em frequência nos shows, especialmente nas apresentações no Nucrepe e na República da Cachaça, duas casas que marcaram a história da música em Itaipava. As proprietárias, Claudia e Fernanda, inclusive marcam presença nos shows da banda até hoje.
O rock que atravessa gerações
Parte da longevidade da S ou S está também no repertório. A banda reúne clássicos do rock nacional e internacional que atravessaram décadas e continuam conhecidos por diferentes gerações.
A escolha das músicas busca equilibrar sucessos que despertam nostalgia com canções capazes de manter a energia das apresentações. “Procuramos montar um repertório que desperte lembranças, faça as pessoas cantarem junto e mantenha a energia do show do começo ao fim”, explica Robson.
Para ele, o rock consegue continuar aproximando gerações porque suas músicas carregam temas que permanecem atuais, como liberdade, amor, superação e inconformismo, sempre com muita personalidade.

Baile do curso de Fisioterapia da UCP. Foto: Arquivo Pessoal
E essa conexão pode ser percebida também nos próprios shows. “É uma sensação que nunca perde a força. Depois de tantos anos de carreira, subir ao palco em Petrópolis continua sendo muito especial, porque existe uma conexão afetiva com o público”.
Segundo o baixista, ver diferentes gerações cantando juntas é uma das maiores recompensas da trajetória. “É algo que emociona e renova a vontade de continuar fazendo música”.

Bastidores da turnê com Celso Blues Boy em Bento Gonçalves (RS), em outubro de 2000. Foto: Arquivo Pessoal
Uma história que continua
A trajetória da S ou S ainda não tem um projeto comemorativo oficial definido para marcar os 40 anos, como um novo álbum ou DVD. A banda, no entanto, segue em plena atividade e mantém sua formação atual com os irmãos Rogério “Percy” Lucas, na guitarra, e Robson Lucas, no baixo, além de Marco Antônio nos vocais e Ronan Faraco na bateria.
A história teve diferentes capítulos desde 1985, incluindo mudanças de integrantes, trabalhos autorais, apresentações ao lado de grandes nomes, uma pausa entre 2000 e 2011 e o retorno às apresentações regulares.
Em 2023, a cena musical da cidade também perdeu Rodney Morelli, então baterista da banda. Na edição da Deguste realizada após sua morte, a S ou S e a dupla Pablo & Bernardo se uniram para tocar quatro músicas acompanhados por dezenas de bateristas.
Depois de Marcelo Berner assumir a bateria entre 2023 e 2024, Ronan passou a integrar a formação em agosto de 2024. Quatro décadas depois daqueles primeiros ensaios com um armário servindo de bateria, a S ou S continua subindo aos palcos de Petrópolis.
A cidade mudou, o rock mudou e o público também. Mas, para uma banda que começou reunindo irmãos em torno de um sonho, algumas coisas permanecem exatamente no mesmo lugar: a vontade de tocar, a amizade e a conexão com quem canta junto.

Formação atual da banda. Foto: Arquivo Pessoal
E quem quiser acompanhar os próximos capítulos dessa história pode encontrar a agenda de shows e mais registros da trajetória da banda nas redes sociais da S ou S no Instagram (@bandasous) e no Facebook (@sousbanda).
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