Quase 18 mil petropolitanos têm algum tipo de deficiência, aponta Censo 2022
Números do IBGE e relatos de quem vive a realidade da deficiência escancaram desafios e avanços da inclusão no município
Dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE, mostram que 6,3% da população de Petrópolis possui algum tipo de deficiência, o que representa cerca de 18 mil pessoas vivendo na cidade.

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Os números ajudam a dimensionar a importância do debate sobre acessibilidade e inclusão no município — especialmente em uma cidade marcada por relevo acidentado e patrimônio histórico.
Barreiras invisíveis
O levantamento também revela desigualdades importantes. A taxa de analfabetismo entre pessoas com deficiência chega a 12,68%, enquanto entre pessoas sem deficiência esse índice é de 2,44%, evidenciando barreiras que vão além da mobilidade urbana e atingem diretamente o acesso à educação e à informação.
Entre as principais dificuldades declaradas pelos moradores estão problemas para enxergar (3%), andar ou subir escadas (2,4%), ouvir (1,2%), pegar pequenos objetos ou abrir garrafas (1,2%) e limitações nas funções mentais (1,2%). Além disso, 1,2% da população foi diagnosticada com autismo, o que representa mais de 3,3 mil petropolitanos.
Inclusão ainda é um desafio
Para Alessandra Caline e Chen Li Cheng, criadores do projeto INcluir Petrópolis, a cidade ainda está longe de ser totalmente acessível. Chen é portador de uma doença rara, a Polineuropatia Amiloidótica Familiar (PAF), e utiliza cadeira de rodas.
“Ainda não consideramos Petrópolis uma cidade inclusiva e acessível e, de forma geral, o Brasil também não é. As cidades ainda têm muito a evoluir para garantir a inclusão plena”, avaliam.
Apesar disso, eles reconhecem avanços recentes, principalmente no comportamento da sociedade civil e do setor privado. Segundo Alessandra, há uma mudança gradual de mentalidade entre comerciantes, empresários e instituições, que passaram a considerar a acessibilidade antes de reformas, eventos ou serviços.
“A INcluir Petrópolis tem buscado fortalecer esse movimento por meio de ações educativas, formações e eventos de sensibilização”, explica.
Um exemplo foi a palestra gratuita, realizada no ano passado, com o especialista nacional em acessibilidade Eduardo Ronchetti, reunindo sociedade civil, iniciativa privada e poder público para discutir soluções técnicas e humanas para a acessibilidade.
Chen também observa avanços nos setores cultural e turístico. “Eventos, restaurantes e hotéis estão cada vez mais atentos à inclusão. Isso amplia o acesso à vida social, cultural e econômica da cidade. Ainda não na velocidade que a sociedade precisa, mas é um avanço real”.

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Acessibilidade como política permanente
Para o casal, o principal desafio agora é transformar iniciativas pontuais em políticas públicas contínuas. “A acessibilidade precisa fazer parte da estrutura de gestão da cidade, com planejamento, formação de servidores, acompanhamento técnico e diálogo permanente entre poder público, empresas e sociedade civil”, destaca Alessandra.
Eles reforçam que tornar Petrópolis acessível não beneficia apenas pessoas com deficiência. “Idosos, gestantes, pessoas com mobilidade reduzida e famílias com crianças também se beneficiam. Em Petrópolis, mais de 15% da população tem 65 anos ou mais. Isso mostra que a inclusão é uma necessidade social, não apenas uma obrigação legal”, afirma Chen.
Além do impacto social, eles apontam o potencial econômico. Uma cidade acessível fortalece o turismo inclusivo, atrai eventos e investimentos e movimenta setores como comércio, hotelaria, gastronomia e cultura.
O que diz a Prefeitura
Questionada, a Prefeitura de Petrópolis informou que há demandas históricas na área e o desafio tem sido enfrentado com planejamento e responsabilidade fiscal.
Entre os exemplos citados, o Museu Casa Santos Dumont é apontado como uma referência em acessibilidade dentro das limitações impostas pelo patrimônio histórico. O espaço conta com rampa de acesso, elevador, banheiro adaptado, além de totem digital, vídeo em Libras, maquete tátil e placas em braille.

Fotos: @serradrone e @imagensnaparede
Sobre os desafios enfrentados na cidade, o secretário de Esporte, Lazer, Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Leandro Kronenberger, destacou as limitações estruturais dos imóveis históricos.
“Hoje, Petrópolis enfrenta um grande desafio quando o assunto é acessibilidade. Os prédios históricos tombados, muitas vezes, não permitem as adaptações necessárias para garantir total acessibilidade, o que se torna um obstáculo constante”, afirmou.
Segundo ele, a prefeitura busca alternativas técnicas para avançar no tema. “Queremos que esse diálogo seja cada vez mais fortalecido, tanto entre os empresários quanto no poder público”.
A prefeitura também informou que, em acordo com o Ministério Público, novos contratos de locação firmados pelo município passaram a incluir cláusulas obrigatórias de acessibilidade, e que novas unidades construídas pela administração municipal já contemplam projetos acessíveis.
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