Fundadora do Instituto TJNS leva Petrópolis à COP30 para discutir justiça climática e racismo ambiental
Pâmela Mércia também conquistou o Prêmio Chico Mendes por seu trabalho na ONG Todos Juntos Ninguém Sozinho, criada após a pandemia e as tragédias de 2022
Durante os próximos dias, o Brasil sedia a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas. E Petrópolis estará muito bem representada no evento por meio da fundadora do Instituto TJNS – Todos Juntos Ninguém Sozinho, Pâmela Mércia, que foi convidada pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro para compor a mesa de diálogo “Mulheres, terrritórios e justiça climática: respostas para a crise ambiental”.

Fotos: Ronaldo Jr./DPRJ e Arquivo Pessoal
“Falei de Petrópolis e das lideranças que atuam na linha de frente e do nosso histórico de tragédias. Sempre bato na tecla que precisamos estar em espaços de tomadas de decisão. A COP é um espaço de discussões globais, mas que impactam diretamente a gente. Não tem como pensar em políticas públicas sem nós”, afirma.
A petropolitana ainda participará de mesas, oficinas e debates com organizações do Brasil e de todo o mundo. O objetivo é claro: colocar Petrópolis no centro das discussões globais sobre mudanças climáticas e garantir que a cidade, marcada por tragédias recorrentes, seja vista, ouvida e apoiada nos próximos eventos extremos.
Para Pâmela, representar Petrópolis na conferência não é apenas prestigioso, é urgente. “Quero levar a realidade da cidade para o debate global e trazer visibilidade para que quando enfrentarmos novos desastres, termos o apoio de organizações e do poder público”.

Foto: Ronaldo Jr./DPRJ
Enfrentamento ao racismo ambiental
O TJNS nasceu em 2020, no auge da pandemia, para dar respostas emergenciais a famílias em vulnerabilidade social. Mas foi em 2022, após as tragédias climáticas de Petrópolis, que a organização encontrou seu rumo definitivo.
A mãe de Pâmela e sua família foram atingidas diretamente pelos deslizamentos, perdendo suas casas. E, vendo que os pedidos de ajuda iriam triplicar, a petropolitana transformou a ONG em uma força de enfrentamento ao racismo ambiental e às mudanças climáticas nos territórios mais vulneráveis da cidade.
“A tragédia mudou tudo. Foi a força motriz para atuarmos na pauta climática. Quem é mais atingido não sabe como cobrar políticas públicas eficazes, e é nisso que trabalhamos. Formando, letrando e dando capacidade para que os territórios possam cobrar políticas públicas relacionados a pauta climática”, conta.
Desde então, o TJNS passou a atuar em todos os distritos de Petrópolis, nos quilombos da Tapera e Boa Esperança e também em outras cidades, como Areal. Os projetos incluem formação, educação, pesquisa, audiovisual, oficinas, rodas de conversa e incidência política, sempre conectando clima, desigualdade social e raça.
“Somos a unica organização na cidade de Petrópolis que trabalha a pauta das mudanças climáticas unindo, social, ambiental, climático e racial, pois tudo é uma coisa só e não tem como separar quando acontece desastres”, reforça Pâmela.

Foto: Ronaldo Jr./DPRJ
Falta de apoio do poder público
Ainda hoje, muitos moradores que foram atingidos pelas tragédias necessitam da ajuda de ONGs para sobreviver, por não poderem contar com apoio pleno do poder público. E a ativista não esconde a frustração.
Ela critica a estrutura dos Nudecs e pontos de apoio, que muitas vezes não têm equipamentos básicos no momento dos desastres, como colchonetes e geradores.
“Parece que só andamos em círculos, se não for trabalhado política de habitação e obras de prevenção. Se preparar para o desastre é a mesma coisa que dar colete a prova de balas e esperar que atirem”, comenta.
O trabalho que virou política pública
Mesmo sem recursos fixos, o TJNS mantém o seu trabalho e, a partir dele, transforma demandas dos moradores em projetos de lei e propostas concretas, como a Lei Municipal do Dia de Enfrentamento ao Racismo Ambiental, sancionada em 23 de dezembro de 2023.
Foi o TJNS que levou ao Legislativo o reconhecimento de que as tragédias não atingem todos de forma igual. “São sempre os mesmos territórios de Petrópolis que sofrem com as chuvas. Em sua maioria, pessoas negras e de baixa renda. Isso se chama racismo ambiental”.
Neste ano, também foi protocolado o Projeto de Lei da Política Municipal de Enfrentamento ao Racismo Ambiental e Mudanças Climáticas, com diretrizes para reduzir riscos, enfrentar desigualdades e melhorar serviços essenciais, como a coleta seletiva, que não chega a muitos bairros periféricos. “As periferias e comunidades sempre sofrem e ficam mais expostas ao risco e às doenças”, declara.

Fotos: Arquivo Pessoal
O reconhecimento nacional
Antes mesmo da COP30, em outubro, a trajetória de Pâmela ganhou alcance nacional com a conquista do Prêmio Chico Mendes, importante reconhecimento nacional sobre pautas que envolvem o meio ambiente.
O Instituto havia se inscrito por chamada pública e concorreu com mais de 550 projetos de todo o país. A petropolitana foi finalista, representando a Mata Atlântica, ao lado de iniciativas de Recife e São Paulo.
Seu trabalho à frente do TJNS foi reconhecido com o prêmio e incentivo de R$ 50 mil. “Fiquei muito feliz. Me dedico completamente ao projeto e ver ele sendo reconhecido nacionalmente é muito significativo”, finaliza.

Fotos: Arquivo Pessoal
O trabalho da ONG pode ser acompanhado em @institutotjns.
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